Do DOOH ao Retail Media: os fluxos de investimento dos anunciantes em 2025

No contexto do marketing e da mídia, inovação real exige integração entre tecnologia, cultura e simplicidade operacional

Sob o lema “Be Bold. Move Forward.”, o DMEXCO 2025, realizado em setembro, em Cologne (Alemanha), consolidou-se como um ponto de virada no debate sobre o futuro do marketing digital. Mais do que um showcase de tecnologias, a feira foi marcada por uma chamada à ação: coragem e lucidez estratégica serão os diferenciais das marcas na próxima fase de transformação. Com números recordes — mais de 40 mil participantes, 1.000 palestrantes e 700 expositores — o evento reuniu líderes globais para discutir não apenas tendências, mas caminhos práticos para transformar estruturas, processos e narrativas em um ambiente de mercado mais exigente, regulado e complexo.

1. IA generativa sai do hype e entra na operação estratégica

Se em 2023 e 2024 a Inteligência Artificial Generativa era o centro das atenções em tom futurista, 2025 marcou um novo estágio: a transição do fascínio tecnológico para a integração estratégica e operacional. Em praticamente todos os palcos, a IA deixou de ser tratada como um “projeto paralelo” para se tornar parte do core de marketing e comunicação. A discussão predominante foi: como usar IA para gerar impacto real, sustentável e mensurável, sem comprometer ética, privacidade ou autenticidade de marca.

Um dos grandes focos foi a qualidade dos dados que alimentam os modelos. Com a redução progressiva de cookies de terceiros e o endurecimento das legislações de privacidade, o valor dos first-party data cresceu exponencialmente. A ênfase deslocou-se de “coletar mais” para coletar melhor: dados próprios bem estruturados, contextuais e éticos são hoje o combustível para que a IA realmente gere valor. Vários painéis destacaram que o uso estratégico de IA depende mais da governança e arquitetura de dados do que da ferramenta em si.

2. Autenticidade como ativo estratégico

Em um ambiente saturado por mensagens automatizadas e conteúdos gerados em massa, a autenticidade emergiu como um diferencial competitivo central. A expressão “authenticity as currency” foi repetida em diversos palcos, sinalizando um consenso: marcas que refletem valores reais e constroem narrativas genuínas conquistam mais do que atenção — conquistam confiança, um ativo escasso no ecossistema digital atual.

Olivier Krüger, CMO da Lufthansa Group, sintetizou esse espírito: “Marcas que são genuínas e refletem a realidade são as que conquistam a confiança das pessoas.” Essa visão desloca o foco de campanhas perfeitas para histórias consistentes, capazes de resistir ao escrutínio público e gerar identificação em escala. Várias empresas apresentaram experiências em que conteúdos menos “polidos”, porém mais humanos e transparentes, superaram campanhas altamente produzidas em termos de engajamento e percepção positiva.

3. Dados, sinais e o novo marketing contextual

Outra linha de discussão dominante foi a redefinição do marketing orientado por dados. Com a escassez de identificadores individuais e o avanço de IA, “sinais contextuais” — comportamentais, culturais, de jornada e de interação — passam a ter papel determinante na personalização. Não se trata mais de perseguir usuários na web, mas de entender contextos e orquestrar mensagens de forma inteligente.

Especialistas destacaram que a IA tem um papel crucial: dar profundidade e velocidade à interpretação desses sinais, conectando fragmentos dispersos em insights acionáveis. Como afirmou um executivo de tecnologia presente no Data & AI Summit: “O diferencial competitivo não está mais em quem tem mais dados, mas em quem interpreta melhor os sinais certos.” Essa mudança exige novas competências internas, maior integração entre áreas e um olhar mais sofisticado sobre segmentação.

4. Canais emergentes: integração e maturidade

O DMEXCO 2025 também foi um palco importante para discutir a expansão e maturação dos canais emergentes — como retail media, DOOH (Digital Out of Home), CTV/ATV e marketing de influência. O tom foi menos de descoberta e mais de consolidação: esses ambientes estão deixando de ser complementares para ocupar posições centrais nos planos de mídia.

O desafio agora é integrá-los de forma coerente, com métricas comparáveis e modelos de atribuição mais precisos. A programática avança para além do display, transformando painéis de rua, plataformas de streaming e marketplaces em espaços de mídia com sofisticação tecnológica. Nesse contexto, um mantra recorrente foi: “Simplicity wins over complicated”. A inovação que prospera não é a que adiciona camadas de complexidade, mas a que consegue simplificar operações e gerar escala real.

5. Sustentabilidade tecnológica e responsabilidade

Um tema que ganhou densidade este ano foi a sustentabilidade na martech. Não mais restrita a ações institucionais, a pauta ambiental chegou ao nível operacional. Palestras e debates abordaram desde a eficiência energética de data centers até a escolha de modelos de IA menos intensivos em carbono. Empresas apresentaram iniciativas para alinhar objetivos de marketing a metas ESG, não como obrigação reputacional, mas como diferencial competitivo em mercados europeus cada vez mais regulados.

6. Cultura, liderança e coragem organizacional

Por trás de todas essas transformações tecnológicas e estratégicas, o DMEXCO 2025 ressaltou que o fator humano continua central. A ideia de “coragem organizacional” atravessou painéis de liderança e cultura corporativa. “DMEXCO é o lugar onde as ideias encontram negócios reais”, afirmou Verena Gründel na abertura do evento, em um discurso que estabeleceu o tom dos dois dias seguintes.

A mensagem foi clara: não basta adotar ferramentas ou seguir tendências — é preciso mudar a mentalidade interna. As organizações que incentivam experimentação controlada, valorizam aprendizado rápido e removem barreiras burocráticas são as que conseguem transformar tecnologia em vantagem real.

Ao final do evento, o sentimento predominante foi de pragmatismo otimista. O DMEXCO 2025 não celebrou gadgets nem slogans vazios. Celebrou a maturidade de um setor que entende que tecnologia, dados e criatividade precisam ser costurados por cultura, visão e coragem. Marcas que conseguirem unir esses elementos estarão mais bem posicionadas para prosperar em um ecossistema digital em transformação acelerada — onde ousar deixou de ser opcional para se tornar estratégico.