SXSW Insights: biotecnologia, empreendedorismo bilionário e inovações no divã

Quarto dia de festival começa a consolidar principais mensagens do ano, entre elas, a auto-análise do ecossistema inovador reunido Austin

Tem uma expressão sendo repetida em diversas palestras e sessões neste SXSW: human-centered. É o próprio ecossistema de inovação reforçando para si mesmo a necessidade de olhar para quem está ao redor. Um grito para mudar o foco dos olhos das telas para as pessoas. Afinal, estamos nos preparando para entrar na era pós-dispositivo graças aos assistentes virtuais e objetos conectados.

Com tecnologias emergentes em processo acelerado de evolução e o debate sobre regulação de algumas delas esquentando, recorrer às necessidades humanas parece a melhor saída para justificar uma verdade implacável: ninguém sabe ao certo onde vamos parar com a Inteligência Artificial em suas diversas formas, a Internet das Coisas, a Mixed Reality e a Biotecnologia.

Confira nossa curadoria de destaques do quarto dia de SXSW:

HOMEM OU MÁQUINA?
Como seria um mundo em que os limites físicos de alguém que perde a perna em um acidente de carro ou sofre de uma doença degenerativa não fossem tão impeditivos?

E como seria esse mesmo mundo se as pessoas pudessem tomar drogas que retardam o envelhecimento das células e tornassem a vida muito, muito mais longa? Se a tecnologia somasse e acelerasse as aptidões da biologia?

As possibilidades desse mundo nada imaginário foram discutidas hoje em dois painéis do SXSW – Extreme Bionics: The Future of Human Ability e Brace for a New Age of Longevity.

Nada imaginário porque há empresas como a alemã Ottobock e a americana Unity Biotechnology recebendo investimento pesado para desenvolver tecnologias e medicamentos capazes de tirar as promessas da neurociência e da biologia molecular dos laboratórios.

Suas causas são bem claras: melhorar a qualidade de vida de gente com alguma incapacidade física e retardar o envelhecimento (ou, pelo menos, prolongar a sensação de juventude em uma população cada vez mais velha). As discussões sempre esbarram na questão regulatória, mas o que está em jogo em ambos os casos são as implicações éticas.

Em Longe da Árvore, o jornalista americano Andrew Salomon repercute, por exemplo, a reação da comunidade surda à tentativa de desenvolver tecnologias que os façam voltar a ouvir. Para muitas dessas pessoas, a identidade surda (composta, inclusive, por um sistema internacional de linguagem) é rica demais para que eles simplesmente passem a ouvir de uma hora para outra sem prejuízo psíquico.

Quanto à tentativa de retardar o envelhecimento, as questões passam por um viés de ordem prática. Como seria o sistema de aposentadoria em países onde as pessoas vivem muito mais de 100 anos? Os medicamentos contra o envelhecimento não poderiam fazer mais gente sofrer por mais tempo de doenças crônicas? Algum sistema de saúde suportaria essa pressão?

Questões como essa dão um uma ideia da complexidade das causas defendidas pelos cientistas e empreendedores do SXSW. É melhor encará-las: o futuro está cada vez mais próximo.

INCLUSÃO, DIVERSIDADE E OPORTUNIDADE
No mesmo dia em que o prefeito de Londres, Sadiq Khan, falou no palco do SXSW sobre o que considera os pilares de uma grande cidade – igualdade, oportunidade e progresso -, um grupo debateu as oportunidades que grandes marcas perdem ao não terem coragem de diversificar a abordagem de gênero em suas comunicações.

“Não por muito tempo, empresas poderão encaixar as consumidores como homens ou mulheres. É melhor não abraçar rótulos e partir para causas, ambições e conquistas”, comentou Shane Whalley, professor transgênero da Universidade do Texas.

Em comum, as duas apresentações tocaram no papel da tecnologia na inclusão – seja ela dos transgêneros na comunicação publicitária ou nas empresas e nas cidades. “É crucial que as pessoas parem de jogar para a tecnologia uma responsabilidade que é delas. Somos nós, empreendedores, pesquisadores, políticos e inovadores, os responsáveis pela mudança nas questões sociais”, acrescentou Shane Whalley.

DATA-DRIVEN GIRL WORLD
A modelo norte-americana e ex-Victoria Secret Karlie Kloss subiu ao palco do SXSW para compartilhar seu projeto que incentiva mulheres 13 a 24 anos a abraçarem o mundo da programação (coding).

A plataforma Kode With Klossy, fundada pela modelo, foi criada para desenvolver professores, ensinar e capacitar meninas a codificar. A ideia é aumentar o número de mulheres que trabalham com tecnologia e, desta forma, promover inclusão e diversidade dentro das companhias.

“Para mim, o mais importante sobre aprender a lidar com tecnologia, é que ao aprender a codificar e por meio dos dados, podemos realmente identificar as oportunidades de transformar o mundo”, explicou.

O debate aconteceu no contexto de iniciativas de pessoas físicas ou jurídicas que promovem algum impacto social. No momento em que o SXSW discute regulação de tecnologias que são ao mesmo tempo brilhantes e preocupantes, o projeto encabeçado por Karlie Kloss é um exemplo do que pode ser verdadeiramente transformador, mesmo que em pequena escala.

CULTURA ALÉM DO COWORKING
Fundador do recente fenômeno mundial WeWork, Miguel McKelvey se apresentou nesta segunda-feira, em Austin, para mostrar de que forma uma rede de escritórios compartilhados atingiu valor de mercado na casa dos US$ 20 bilhões.

É interessante notar que Miguel não justifica seu crescimento pela explosão do empreendedorismo ou possibilidade de empresas reduzirem custos, mas por um entendimento profundo sobre o que as pessoas buscam no ambiente de trabalho.

“Gostar de seu trabalho é estar num espaço de amor. E amor é uma palavra que falamos pouco no escritório”, contou. “Fiquei nervoso quando descobri isso a partir de uma pesquisa. E foi difícil abordar esse assunto dessa maneira no início”.

Segundo McKelvey, são inúmeras variáveis que podem fazer esse espaço de amor ser corroído. Desde as mais banais, como um ar condicionado mal calibrado, à falta de propósito.

Estar descontente com o emprego parece ser mais a regra do que a exceção atualmente. Manter o engajamento no ambiente de trabalho, portanto, é um desafio e tanto. E a resposta para isso, segundo o empreendedor, passa pela cultura da empresa. Mais do que móveis descolados e infraestrutura, é isso que o WeWork oferece.

“O que vendemos é cultura. No final das contas, os profissionais querem sentir determinada energia. Isso precisa ser cuidado pelo nosso time diariamente”, disse.

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SXSW Insights 2018 é um projeto proprietário da GoAd Media que detecta as principais tendências do maior festival de interatividade do mundo e entrega o conteúdo em formatos de Análises Diárias, White Paper e Palestras In Company.
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Insights: Andrea Magama, Christian Miguel, Eduardo Zanelato e José Saad Neto