SXSW Insights: aparição surpresa de Elon Musk e empatia nos negócios

Nossa curadoria do segundo dia do evento passa pelo fundador da SpaceX, cidades cashless e ausência de novas causas

A aparição não prevista de Elon Musk, co-fundador da Tesla e fundador da SpaceX, no painel de Westworld (série da HBO), no Austin Convention Center, foi uma das boas surpresas deste sábado, no SXSW. Ele comentou as recentes declarações do cientista russo Konstantin Tsiolkovsky, que disse respeitar a Terra como berço da humanidade, mas que não podemos ficar no berço para sempre. “Está na hora de avançarmos. De estarmos entre as estrelas. Isso é para mim incrivelmente excitante. É o que me deixa feliz em estar vivo”.

Musk também mostrou o vídeo de divulgação do Falcon Heavy, que recentemente se tornou o maior e mais poderoso foguete do mundo a ir para o espaço desde 1973.

Confira nossa curadoria de destaques do segundo dia do SXSW 2018:

EMPATIA: A CHAVE PARA NAVEGAR EM MOMENTOS COMPLEXOS
Tudo me é lícito mas nem tudo me convém: a máxima é bíblica, mas fala alto ao contexto apresentado no painel Able, allowed, should: navigating modern tech ethics, por Margaret Gould Stewart, vice-presidente de design de produto do Facebook. Ali, ela apresentou os dilemas de desenhar funcionalidades para uma plataforma com 2 bilhões de pessoas – ou a população do planeta em 1930.

Ela categoriza os desafios enfrentados por companhias como o Facebook numa caixa mais próxima das ciências humanas – como a sociologia – do que do próprio design como disciplina. Um verdadeiro “planejamento urbano digital” que deve atender a multidões e se organizar como ecossistemas complexos.

Até aquele ponto meio naive, a palestra passou a se conectar com temas fundamentais discutidos neste SXSW: o esforço humano da inteligência artificial (a complexidade de ações e o volume de trabalho humano em criar IA que faça sentido e possa ser explicado) e a necessidade fundamental da empatia para calçar os sapatos do outro e entender onde lhe aperta o calo. “Isso é fundamental para desenhar produtos de maneira eticamente responsável”, afirmou.

Para conduzir esse trabalho constante, Margaret destacou a importância de aprender com casos de mau uso da ferramenta (para evitá-los conforme o ecossistema do Facebook evolui); a se apoiar em parceiros para trazer seu conhecimento ao processo de trabalho (algo já em prática com profissionais de saúde para auxiliar pessoas com problemas mentais que se manifestam sobre isso na rede); e a definir melhor o que é sucesso e consequentemente medi-lo corretamente (o que está por trás da mudança do algoritmo, agora mais focado em valorizar interações sociais significativas em vez de tempo gasto na plataforma).

Impossível não pensar na frase de Margaret minutos antes na abertura do painel, dando conta da complexidade do desafio com o qual o Facebook se depara mas reforçando que este não é um pretexto para eximir a companhia de suas responsabilidades. Afinal, não há empatia que dê conta de uma empresa poderosa se esquivando das responsabilidades que seu próprio gigantismo já não as permite negar.

OUTRA MENSAGEM DO FACEBOOK: “A FOFOCA EXISTIA MUITO ANTES DE MIM”
Em outro painel encabeçado pelo Facebook, Andrew Keller, diretor criativo global da plataforma, trouxe a perspectiva de empoderamento da comunidade. Assim como vem acontecendo em diversas sessões do SXSW, Keller voltou às origens da humanidade ao relembrar que fofoca sempre fez parte da vida das pessoas e que isso, de certa forma, as aproximava.

Então, em 1969, o nascimento da internet (na época chamada de Arpanet) mudaria para sempre a forma como as pessoas se comunicam. Entretanto, para ele, nos últimos anos pode ter acontecido uma incompreensão sobre as aplicações e o uso da tecnologia na vida das pessoas. “O propósito da tecnologia é definido pelas pessoas ou como a tecnologia pode servir as pessoas”.

Com essa mensagem e exemplos muito claro, Keller compartilhou com a plateia um aprendizado sobre empatia.

“Das histórias, aprendemos que as pessoas desejam mais autenticidade. Dos grupos, aprendemos que as pessoas buscam significado e valores compartilhados. Das mensagens, aprendemos que as pessoas querem relacionamentos produtivos com marcas”.

Entre os exemplos usados por Keller, estava o brasileiro Chat 2 Get Fanta Guaraná, criado pela agência Mutato, que levou o sabor do refrigerante ao Mc Donald`s e utilizou chatbots para dar cupons aos amigos.

CASHLESS CITY: OS PLANOS DO ALIBABA GROUP
O fim do dinheiro físico – entenda-se, notas de papel, moedas e cartão de crédito plástico – começa a ficar mais próximo com iniciativas em mercados robustos, como a China. Quem mostrou foi Shanyin Leung, diretor da Ant Financial, braço financeiro do gigante Alibaba. Ele contou de que forma a empresa prioriza o investimento na implementação do conceito cashless cities no país mais populoso do mundo.

Em Xangai, a companhia viabilizou a instalação da tecnologia de reconhecimento facial em substituição ao cartão do transporte urbano, em parte das estações de metro da cidade, com liberação da catraca para milhares de pessoas em poucos minutos.

Outra iniciativa da Ant Financial foi a criação de um jogo para celular utilizando Realidade Aumentada, por meio do qual os jogadores ganham pontos ao adotarem práticas que reduzam a emissão de carbono. Por exemplo, ir a pé ou de bicicleta para o trabalho e utilizar meios digitais de pagamento. Como resultado, mais de 250 milhões de pessoas se engajaram e cerca de 30 milhões de árvores foram plantadas em menos de dois anos.

O vídeo abaixo mostra o tamanho e a força de investimento da Ant Financial:

NEGÓCIOS À PROVA DO FUTURO
O SXSW traz uma série de debates sobre como as empresas podem sobreviver à próxima disrupção e, em todos eles, há algo em comum: o entendimento claro dessas companhias sobre seu propósito. Ou seja, a razão mais profunda e contextual de existir.

Para o autor do best-seller Futureproof: how to get your business ready for the next disruption, Minter Dial, os principais fatores de sucesso passam pelo já citado propósito que vá além do lucro; manter um mindset positivo sobre as novas tecnologias e comportamentos, pois se a orientação for negativa, o futuro, de fato, será uma ameaça; manter um plano de comunicação interna e externa eficiente e transparente, além de encarar a inevitável transformação digital.

O PASSADO, SÓ QUE HOJE
Apesar de ser reconhecido por chacoalhar o status quo há 30 anos, em 2018 o SXSW está se revelando um retorno ao básico no que se refere às causas. Não que as bandeiras do festival estejam velhas. É que algumas causas são premissas muito básicas dos direitos humanos — ainda que, mesmo em 2018, infelizmente não sejam consenso. Por quê?

Essa é a pergunta que Christine Amanpour, principal correspondente internacional da CNN, tenta responder ao abordar as diferentes nuances do amor e do sexo em uma nova série, Sex and Love Around The World, que estreia no próximo fim de semana.

Na série, Amanpour visita diversas cidades e culturas para mostrar como a perspectiva feminina é pouco respeitada quando o assunto é prazer e afetividade. Sua fala desperta um incômodo: ainda que o mundo esteja cada vez mais conectado, muitas mulheres não têm autonomia sobre o próprio corpo em muitos lugares.

Outro keynote speaker deste sábado, Ta-Nehisi Coates, escritor dos quadrinhos Pantera Negra e novo roteirista de Capitão América, expõe o que a ala progressista americana já denuncia há algum tempo. A cada investida racista ou sexista de Donald Trump, fica mais difícil dar um tratamento imparcial à cobertura política da imprensa.

“A chegada de Trump ao poder é uma resposta ao avanço progressista da era Obama, e só mostra como a supremacia branca é parte do nosso sistema político”, disse Coates.

Apesar dos bodes na sala, causas do futuro também ganharam espaço neste sábado. Duas têm a ver com o incrível avanço da tecnologia nos últimos anos. Como democratizar o acesso aos dados de saúde colhidos por um sem-fim de dispositivos, sensores e wearables que já são parte fundamental da nossa vida?

E quais os limites da Inteligência Artificial num momento em que os softwares e algoritmos já imitam com assertividade o padrão humano de tomada de decisão?

Bem, são perguntas que combinam totalmente com o clima de vanguarda pelo qual o SXSW é tão conhecido. Mas, antes, é preciso acertar contas com assuntos muito básicos da vida em sociedade.

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SXSW Insights 2018 
é um projeto proprietário da GoAd Media que detecta as principais tendências do maior festival de interatividade do mundo e entrega o conteúdo em formatos de Análises Diárias, White Paper e Palestras In Company.
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Insights: Andrea Magama, Christian Miguel, Eduardo Zanelato e José Saad Neto