Jornalismo contemporâneo: mais colaboração, diversidade e inovação

Mais de 400 pessoas se reuniram no último fim de semana, no Rio de Janeiro, para discutir tendências e desafios da área

Com foco em um jornalismo inovador, inspirador e independente, o Festival 3i reuniu mais de 400 pessoas na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, entre os dias 18 e 20 de outubro. O evento contou com representantes de organizações nativas digitais e da mídia tradicional, de diversos países, que se dividiram em nove painéis. A curadoria e coordenação ficou a cargo de 13 organizações jornalísticas digitais brasileiras: Agência Pública, Projeto Colabora, Congresso em Foco, É Nóis, Marco Zero Conteúdo, Nexo, Nova Escola, (O) Eco, Poder 360, Ponte e Repórter Brasil.

Confira, a seguir, alguns dos principais temas e cases discutidos no festival, perpassando o papel do jornalismo na sociedade contemporânea, modelos de negócio, relação com a audiência e combate à desinformação.

Jornalismo e democracia

O papel do jornalismo como instrumento essencial para a democracia foi um dos principais temas do evento e contou com a participação de dois dos profissionais mais premiados e reconhecidos do mundo no campo do jornalismo investigativo: Giannina Segnini, membro do Consório Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e diretora do mestrado em jornalismo de dados da Columbia Journalism School, e Glenn Greenwald, cofundador do The Intercept Brasil.

Greenwald reafirmou a importância do trabalho da imprensa na fiscalização dos poderes públicos ­– destacando, em especial, a investigação Vaza Jato, conduzida por The Intercept Brasil, que vem denunciando, em parceria com outros veículos de comunicação, uma série de irregularidades cometidas pela operação anti-corrupção Lava Jato.  “Não tem nada mais perigoso para uma democracia do que deixar um facção poderosa sem ser investigada, sem ser questionada. O papel mais importante da imprensa livre é esse”, defendeu Greenwald.

O jornalista afirmou que, ao receber os vazamentos sobre a Lava Jato, não teve nenhuma dúvida sobre o que fazer. Só havia uma opção: investigar e publicar. “Como poderia falar que sou jornalista se não seguisse com essa investigação? Sempre soubemos que isso não era apenas nosso direito, mas nossa obrigação”.

Referência mundial em reportagens investigativas baseadas em dados, Giannina Segnini destacou que a tecnologia hoje permite ao jornalismo chegar a lugares antes inatingíveis. Mas enfatizou que os dados são apenas uma ferramenta a mais no processo de apuração e construção de uma reportagem: “Por mais que as histórias sejam de interesse público, devemos tomar os vazamentos, por exemplo, apenas como um ponto de partida em um processo muito mais abrangente de verificação e investigação”.

Há jornalistas no mundo inteiro provando todos os dias o poder que o jornalismo tem se você mantiver a coragem e a vontade de encará-lo não só como uma carreira, mas como uma causa“.
Glenn Greenwald – The Intercept Brasil


Combate à desinformação

A educação como ferramenta de combate à desinformação foi defendida pelos participantes de painel sobre o tema, realizado no primeiro dia do evento. “Hache” Ariel Merpet, coordenador de educação do Chequeado (Argentina), enfatizou a importância de desenvolver o pensamento crítico e apresentou uma nova iniciativa do qual a organização faz parte, o programa Reverso (vídeo a seguir). Trata-se de projeto colaborativo com foco nas eleições deste ano na Argentina, envolvendo 100 meios de comunicação e empresas de tecnologia. O programa promove a capacitação de jornalistas no combate à desinformação, checa informações compartilhadas nas redes sociais, e esclarece dúvidas da população sobre a veracidade de conteúdos distribuídos nesses canais.

Tania Montalvo, editora geral do do Animal Político (México), ressaltou a importância de ampliar os canais de comunicação com os cidadãos, para que as pessoas digam o que gostariam que fosse verificado e também sejam orientadas sobre como elas mesmas podem checar determinadas informações. Nas eleições do ano passado no México, por meio do projeto Verificado, o grupo também se dedicou à formação de autoridades eleitorais e suas equipes, e trabalhou em parceria com o serviço público na verificação de conteúdo. “Não minimizamos nenhum tipo de informação. Escutamos o que os cidadãos querem nos dizer e respondemos às suas dúvidas”, destacou.

No que diz respeito à responsabilidade das plataformas de redes sociais na proliferação de notícias falsas, é consenso entre os participantes do painel de que é preciso trabalhar em conjunto para conter a desinformação e, acima de tudo, cobrar mais empenho e comprometimento por parte desses grupos. “O papel das plataformas ainda é muito tímido nesse sentido”, afirmou Adriana Barsotti, professora da Universidade Federal Fluminense e integrante do Projeto Colabora (Brasil).

Segundo ela, um passo importante seria ampliar o alcance dos “desmentidos” e fazer com que o conteúdo verificado pelas agências de fact-checking chegasse ao maior número possível de usuários das redes sociais, e não apenas a um determinado grupo que segue essas organizações e é condicionado pelos algoritmos a receber essas informações. “Precisa haver uma mudança de atitude da sociedade. O combate à desinformação não é um problema só do jornalismo. O jornalismo está fazendo seu papel, mas outros setores da sociedade, não”, avaliou.

Confiança e credibilidade

Em um momento em que a reputação da imprensa vem sendo tão atacada e ameaçada pelas notícias falsas, os veículos reconhecidos por seu trabalho ganham a preferência da audiência e também de marcas que trabalham em parcerias com publishers. Mas mesmo organizações tradicionais, como The New York Times (EUA), precisam reforçar a comunicação sobre a sua missão e a seriedade com que desempenham seu trabalho.

No Festival 3i, Millie Tran, editora de plataformas do jornal,  destacou o esforço da organização para transmitir seus valores e profissionalismo em todos os canais em que se comunica com o público. “Seja transparente. Revele o que você sabe e como você chegou àquelas informações. Mostre o trabalho dos repórteres. Dessa forma, você constrói uma relação de confiança com as pessoas”, recomendou. O jornal lançou uma premiada campanha sobre o rigoroso processo de apuração de suas reportagens, dividida em cinco episódios (vídeo a seguir).

Engajamento e relevância

Que canais ativar para chegar ao público sem depender tanto das plataformas? O que cobrir e de que forma contar essas histórias? Como converter isso em receita e garantir a sustentabilidade do negócio? Esses foram as questões abordadas na mesa que abriu o segundo dia do Festival 3i.

Millie Tran, do The New York Times, destacou que, diante de tanta coisa acontecendo on-line, é preciso entender o que realmente importa para o seu público; como ele tem acesso à informação, consome e compartilha conteúdo; e, claro, como os algoritmos utilizados pelas plataformas determinam o que é exibido para cada pessoa.

The New York Times tem prestado mais atenção aos sinais da audiência e se dedicado a temas e acontecimentos que anteriormente não ganhariam uma cobertura tão intensa, mas passaram a ocupar mais espaço porque ficou claro que têm relevância para o público. O jornal também tem investido em uma cobertura cada vez mais customizada, de acordo com as peculiaridades de cada canal. “Se trata de entender sua marca e adequá-la à voz e ao tom de cada plataforma”, afirmou.

A estratégia do Efecto Cocuyo (Venezuela) para se conectar com a audiência envolve uma série de encontros físicos, com grupos de estudantes, ativistas e imigrantes, entre outros (vídeo a seguir). Parcerias com universidades ajudam a organizar esses eventos, onde se discute a realidade vivida por essas pessoas, se recolhem propostas para fazer um jornalismo melhor, e, em alguns casos, se produz conteúdo de forma colaborativa. “Procuramos estabelecer, de fato, um diálogo com a nossa audiência, e trazer conteúdo útil para esse público”, explicou Danisbel Gómez Morillo, diretora de estratégia da organização.

Métricas e KPIs

Ana Freitas, Head de Audiência e Insights na Accenture Interactive (Brasil), convocou os jornalistas a recorrerem mais aos dados na hora de definir pautas, formatos e canais de distribuição de suas histórias. “Por alguma razão, ainda se costuma partir de uma lógica de produção de conteúdo que não escuta a audiência”, criticou. “Um desafio pessoal para nós, jornalistas, é entender mais de métricas, ter mais familiaridade com análise de dados, e não depender de uma outra equipe que faz esse trabalho. Há um grande valor em você mesma olhar para os dados, entender o que significam com relação ao comportamento das pessoas, e tomar isso como base para suas pautas, para a tomada de decisões e definição de estratégias”.

Diversificação da receita

Embora o modelo de negócios que dominava a indústria jornalística no século passado venha ruindo, a publicidade ainda responde por boa parte da receita dos veículos de comunicação. Mas quem quiser sobreviver e garantir sua liberdade editorial não pode insistir nesse caminho. “Diversifiquem suas fontes de receita para manter a independência”, recomendou Janine Warner, cofundadora e diretora executiva da SembraMedia, organização que estuda, capacita e  investe em empreendimentos jornalísticos digitais na América Latina. Para colocar isso em prática, é preciso começar pela diversificação das equipes, que devem contar com habilidades cada vez mais abrangentes – incluindo, além de jornalistas, especialistas em tecnologia, negócios e marketing, entre outros.

Na tentativa de depender menos da publicidade, tem-se verificado uma forte ênfase dos veículos de comunicação nas assinaturas – tanto em startups como em empresas da mídia tradicional. Mas essa possibilidade precisa ser vista como apenas uma das tantas que é preciso explorar. O alerta é de Rosental Calmon Alves, fundador do Knight Center for Journalism in the Americas e professor de The University of Texas at Austin, convidado que abriu o Festival 3i na sexta-feira, dia 18. “Há uma expectativa exagerada em se colocar nas assinaturas e memberships o peso que a publicidade tinha. Mas essa não é a solução. É apenas parte da solução”, enfatizou.

Colaboração

Uma das mais fortes tendências no mercado da comunicação na era digital é a colaboração – entre profissionais, veículos e público. Alguns dos mais importantes projetos jornalísticos realizados recentemente resultaram de projetos em rede, envolvendo diversos países.

É o caso, por exemplo, de The Panama Papers, uma das maiores investigações da história do jornalismo, realizada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) a partir do vazamento de 11,5 milhões de registros financeiros do escritório Mossack Fonseca, referentes a uma rede internacional de empresas offshore, envolvendo chefes de Estado, ministros e parlamentares. “O crime é transnacional, o jornalismo também precisa ser”, defendeu José Roberto de Toledo, editor executivo do site da revista Piauí (Brasil), e um dos profissionais envolvidos na investigação

Toledo conta que foi montada uma rede com 400 jornalistas e 100 veículos, de 80 países e 25 idiomas. “Imagine coordenar toda esse rede, sem vazar nada, durante um ano inteiro? O mérito é do ICIJ, que estruturou e conduziu todo o processo, e também das poderosas ferramentas criadas para permitir esse trabalho, com rigoroso sistema de segurança e atualização da apuração em tempo real” destacou. 

Natália Viana, diretora da Agência Pública (Brasil), apresentou Por Trás do Alimento, uma das investigações colaborativas da qual a organização participa atualmente, em parceria com a Repórter Brasil. O projeto enfoca a produção de alimentos no Brasil e, em particular, o impacto dos agrotóxicos.

Para ampliar o alcance das informações, o programa lançou um boletim em áudio, compartilhado no Whatsapp, e criou o Robotox, robô que verifica o conteúdo publicado no Diário Oficial e posta no Twitter toda vez que o governo brasileiro libera o uso de um novo agrotóxico no país. “Se vocês ouviram falar que o governo Bolsonaro está liberando agrotóxicos como nenhum outro governo antes é por conta de uma linda colaboração entre duas organizações independentes de jornalismo”, destacou Viana.

“Informação é poder. O City Bureau trabalha por um futuro em que todas as pessoas terão o conhecimento e as ferramentas necessárias para promover mudanças em suas comunidades”. Darryl Holliday, diretor do News Lab do City Bureau, laboratório de jornalismo cívico em Chicago (EUA), sobre como cobrir a cidade fora das redações tradicionais.


Diversidade

Uma discussão que vem fazendo parte de vários festivais sobre a indústria da comunicação e do marketing também se fez presente no 3i. Vários speakers chamaram a atenção para a urgência de promover a diversidade no jornalismo, com toda a amplitude que esse termo abarca. Diversidade na equipe, nas fontes, nas regiões enfocadas, nas pautas, nos formatos, nos públicos, nos canais de distribuição.

“Pouca diversidade de profissionais, nos cargos de chefia nas redações e, principalmente, de fontes empobrece não só o jornalismo, mas também a democracia e a luta de grupos historicamente silenciados pela mídia em geral”, enfatizou Carolina Monteiro, presidente do conselho diretor da Marco Zero Conteúdo (Brasil) e mediadora de um painel sobre o tema.

“Como falar sobre a cidade se a cidade em si é pouco ou nada conhecida por quem está dentro das redações tradicionais?”, questionou Raull Santiago, integrante do coletivo Papo Reto (Brasil). Ele também cobrou dos organizadores do festival mais representatividade nas mesas do evento. “Inovação, inspiração e independência não estão no palco nesse momento. Estão aqui na frente, na platéia, nos profissionais e estudantes pretos, favelados e periféricos. Se conectem a essas pessoas, conheçam seus veículos de comunicação, façam jornalismo juntos. Transformar a realidade não é ver essas pessoas como fontes, mas como produtoras de conteúdo”, argumentou.

A jornalista Elvira Lobato apresentou o case do jornal mineiro A Sirene, que amplia as vozes e as pautas apresentadas na mídia. O projeto é produzido pela comunidade atingida pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG).