Inovação: o impacto da alta tecnologia sobre o cotidiano das grandes cidades

Confira as principais tendências sobre o tema apresentadas no DM.exco 2019, principal evento de marketing digital da Europa

Realizado em Colônia, na Alemanha, o DM.exco (Digital Marketing Expo & Conference) reuniu, neste ano, 45 mil profissionais do setor. O evento ocorreu nos dias 11 e 12 de setembro, com a participação de 600 palestrantes e 932 expositores, das big techs do Vale do Silício às startups de Berlim. Confira, a seguir, as principais tendências apresentadas no festival com foco no impacto da tecnologia sobre o nosso cotidiano e as inovações que se anunciam para os próximos anos.

Mobilidade urbana

Nas ruas ou até pelos ares, a mobilidade nas cidades tem gerado intensos debates sobre regulamentação, provocados pelas novas formas de locomoção que estão amadurecendo ou pela adaptação dos antigos sistemas de transporte. O cenário para a próxima década envolve uma série de desafios para as empresas que fornecem  serviços e as autoridades reguladoras de cada região.

O tema foi alvo de um painel do DM.exco com a participação de representantes de três setores – todos elétricos – que ganham destaque nestes novos tempos: scooters, patinetes e pequenos táxis aéreos. Entre os participantes, é consenso que o mundo terá menos carros, e a mobilidade será mais eficiente e elétrica.

“Nos próximos 10 a 15 anos haverá uma grande revolução na mobilidade, conduzida por três pilares: a eletrificação de carros, o compartilhamento e os veículos autônomos com maior tempo de uso”, afirmou Pascal Leornard Blum, cofundador e CEO da Unumotors, fabricante alemã de scooters elétricas (vídeo a seguir). Com a proliferação dos carros autônomos, as cidades terão de encontrar soluções para a convivência entre esses modelos e os veículos com motorista.

Para Alexandre Zosel, cofundador e chief innovation advisor da Volocopter, empresa alemã de aeronaves que pretende lançar o táxi aéreo elétrico em 2023, não faz sentido misturar veículos autonômos com os modelos dirigidos. “Se a decisão for apenas pelos autônomos, os outros carros serão afastados, e isso tornará o tráfego mais leve”, afirmou.

Os táxis áereos, como os modelos da Volocopter, por sinal, também não podem ser vistos como uma opção de deslocamento por todos os lugares. As pequenas aeronaves, que são autônomas, devem ter limites de voos. Devem ser impedidas de voar sobre parques, por exemplo, e em ambientes em que o barulho dos motores possa perturbar as pessoas.

Uma possível medida para evitar futuros congestionamentos devido ao mix de carros será determinar zonas de circulação exclusivas para veículos autônomos. Isso pode ser importante até que carros e shuttles inteligentes conquistem a confiança de governos e usuários, principalmente pelo lado da segurança.

Mesmo entre os serviços de patinetes pairam questões. Estudo recente da Agência Federal de Meio Ambiente da Alemanha concluiu que quem mais usa esse tipo de transporte são jovens ou pessoas que já não tinham automóveis – o que não alivia o tráfego e a poluição causada pelos motores à combustão nas metrópoles. Além disso, os deslocamentos são feitos principalmente à noite e nos fins de semana, conferindo um caráter de lazer aos equipamentos, e tirando parte de sua relevância como alternativa à locomoção em carros ou pelo transporte público. Por outro lado, a fabricação acelerada dos patinetes e as unidades quebradas elevam o “lixo” nas cidades e a emissão de CO2.

Julian Blessin, cofundador da Tier Mobility, que fornece patinetes elétricos, defendeu o segmento, alegando que ainda existem poucos dados sobre o setor para avaliar seu real impacto. “Quando falamos com os nossos usuários, eles afirmam que os patinetes estão substituindo os carros”, declarou. Um ponto a favor é que são bastante alugados por turistas. Para Blessin, se a micromobilidade conseguir substituir um terço das viagens de carro já será um grande sucesso.

AI sobre trilhos

Considerado o meio de transporte coletivo mais eco-friendly, o trem enfrenta desafios para atender à demanda que se dimensiona no futuro. O sistema ferroviário alemão, Deutsche Bahn, calcula que em 2030 conduzirá 260 milhões de passageiros em seus vagões. Para dar conta desse volume, vai ser preciso investir não apenas em infraestrutura e novos trens, mas em inteligência artificial e computação de alta performance. A avaliação é da professora de engenharia mecânica Sabina Jeschke, uma das convidadas do DM.exco e integrante do Conselho de Administração de Digitalização e Tecnologia da Deutsche Bahn.

Jeschke destacou que a tecnologia pode ajudar a otimizar o tempo de deslocamento dos cidadãos – hoje, são de duas a três horas por dia dentro de um trem. Também pode minimizar outro problema, que é a superlotação dos vagões em determinados horários.

Por fim, há que se aperfeiçoar a comunicação. Se uma composição é obrigada a parar de súbito no meio do caminho, acontece um efeito cascata, provocando atrasos. Frequentemente, o motivo não é descoberto rapidamente, já que a tecnologia que comunica esses entraves é mais antiga. Uma solução seria implementar sensores inteligentes para comunicar com agilidade situações inusitadas, como queda de galhos nos trilhos ou alagamentos. Esses sensores seriam conectados a um sistema inteligente. A análise de dados indicaria que tipo de ocorrência se deu e calcularia o tempo para reordenar o tráfego.

Outra possibilidade é a computação quântica. Como destacou Sabina Jeschke, a computação de alta performance irá empurrar a inteligência artificial para um nível ainda mais avançado. “Ela será tão poderosa que iremos simular sistemas que até agora nem começamos a projetar”, adiantou. Por exemplo, a projeção de uma composição digital gêmea à física indicará as resoluções que devem ser tomadas em tempo muito inferior ao atual.

Com isso, pode-se imaginar o seguinte cenário futuro: sensores detectam um problema, o sistema inteligente projeta o exato tempo para correção e recuperação, a composição seguinte para e retorna dentro desse intervalo calculado com alta precisão, diminuindo atrasos e aumentando a capacidade de transporte, sem a necessidade de acrescentar vagões ao trem.

Alimentação sustentável

Proteínas criadas em laboratório, bebidas enriquecidas com nutrientes que dispensam refeições pesadas, e até um pacote de cereais personalizado, incluindo itens mais indicados para o perfil genético do consumidor. Todas essas são possibilidades reais de inovar a maneira como nos alimentamos, e foram debatidas nos palcos do DM.exco.

Ainda em desenvolvimento, a “carne cultivada” é uma modalidade de produção de alimento como se fosse carne natural, mas sem envolver o abate de animais. Ela consiste do uso de células-tronco colhidas de rebanhos, preparadas em laboratórios para que cresçam e virem alimento com textura e gosto semelhantes aos de um bife real.

A startup holandesa Meatable é um dos centros que pesquisa essa produção, mas não terá sua própria marca de carne. A empresa licenciará sua tecnologia, para que outras empresas desenvolvam seus produtos – promovendo mais diversidade e inclusão à mesa.

A Meatable prevê que a carne gerada por essas células chegue ao mercado em cinco anos, mas outras empresas indicam que podem oferecer o produto em 2021. O que já existe é a carne preparada com plantas, voltada para quem não consome produtos de origem animal. E, quando o assunto é saúde, já se pode esperar uma “batalha” entre essas duas vertentes (carne cultivada em laboratário x carne vegetal). Segundo Daan Luiting, CTO da Meatable, o produto de laboratório contém os mesmos nutrientes do natural. A carne vegetal, por sua vez, exige muito óleo de palma em sua composição para conferir mais gosto ao alimento, e o excesso de gordura não faz bem ao organismo.

Para quem busca opções vegetarianas, uma outra modalidade de alimento é o preparo de bebidas (shakes) com um composto em pó à base de plantas, incluindo proteínas extraídas de ervilhas, arroz, sementes de girassol, coco e castanhas. Enriquecido de vitaminas e com nutrientes requeridos pelo organismo diariamente, o produto é oferecido como meio de substituir o café da manhã e o almoço. A marca inglesa Huel (vídeo acima) abastece 80 países.

James McMaster, CEO da empresa, afirmou que comer mais plantas é uma maneira de respeitar mais o planeta. Em suas palavras, cerca de 30% dos alimentos que produzimos não são consumidos, e acabam indo para o lixo. Uma das razões para as pessoas comprarem os produtos da Huel, defende ele, é não desperdiçar tanta comida. Pelo lado da consciência ecológica, as recentes queimadas na Amazônia jogaram luz sobre o impacto negativo do consumo de produtos de origem animal, diante da prática de desmatar a floresta para criar campos de pastagem para o gado.

Pelo lado da saúde, a proposta de personalização da alemã Mymuesli (vídeo abaixo) pode agradar quem se preocupa com a ingestão de produtos que tragam benefícios para o organismo (ou ajudem a evitar problemas de saúde). O que começou como um meio de oferecer cereais (musli) ao gosto de freguês, sem uvas passas ou com mais frutas de um tipo, fugindo da padronização das grandes marcas, logo se transformou em um produto com embalagem customizada e layout moderno. Na toada da customização, o passo seguinte foi investir em testes de DNA e também do microbioma (conjunto de bactérias, fungos e vírus que compõem o organismo) para avaliar que ingredientes podem realmente melhorar a saúde de cada cliente.

Por meio do novo serviço, amostras de saliva ou exame de sangue do consumidor vão para laboratórios parceiros da companhia, indicando, por exemplo, se a ingestão de banana elevaria o nível de açúcar do indívíduo – informação que pode combater um mal futuro.

Tanto a Huel quanto a Mymuesli investiram fortemente em marketing digital para dar robustez a seus negócios. As duas adotaram o e-commerce como modelo de vendas. A Huel ainda é 100% on-line, mas estuda adotar lojas. A Mymuesli tem lojas próprias e entrou para o varejo, onde compete com marcas tradicionais. O diretor de inovação da empresa, Maximilian Pahn, contou que o digital é a estratégia que permite crescer mais rapidamente quando se está no setor de alimentos. Isso porque, segundo ele, o ambiente on-line costuma ter consumidores mais open-minded. E as plataformas interativas dão mais feedback e permitem estudar mais dados para quem depende de experimentação.

Formação profissional 4.0

A transformação digital é um processo sem volta no mundo corporativo, e o seu sucesso se deve, em grande parte, à capacitação do time envolvido. Um dos temas em pauta no DM.exco foram os desafios enfrentados pelas empresas com relação à formação digital de seus profissionais, a fim de acompanhar a velocidade com que as tecnologias vêm evoluindo. Grandes companhias já perceberam que não há talentos em quantidade suficiente no mercado para atender às necessidades que terão no futuro. É preciso formá-los.

Chief learning officer da Microsoft em Munique, Alemanha, Mohanna Azarmandi coordena programas de aprendizagem para funcionários da organização, e compartilhou sua experiência com os participantes do evento. Entre as iniciativas da Microsoft nessa área está o lançamento de um curso on-line em parceria com a escola de negócios Insead, para que os executivos da empresa aprendam mais sobre inteligência artificial e como aplicá-la na empresa. O conteúdo pode ser acessado on-demand, e traz insights de líderes como Chris Capossela, CMO da Microsoft.

A empresa, no entanto, não se limita a desenvolver determinadas habilidades entre grupos específicos de profissionais. Conhecimento técnico tem se tornado importante mesmo para o staff não técnico. Outro compromisso da Microsoft é escalar o conhecimento também entre clientes e parceiros – medida que faz ainda mais sentido quando se considera um estudo recente do Ministério da Educação da Alemanha, que revelou que 30% dos adultos no país não têm experiências de digital learning.

Já que é necessário abrir janelas para o conhecimento, quais são as melhores alternativas e métodos? Diversas companhias oferecem cursos dentro das empresas ou a distância. A mistura de modalidades é uma opção que agrada muitas empresas. O digital permite que se acesse conteúdo onde quer que seja. Pode-se aprender por meio de um podcast, de uma plataforma de vídeo ou de um aplicativo. Mas quando se trata de construir conhecimento profundo – o gênero que permite a uma pessoa tirar o máximo proveito do que foi aprendido – o envolvimento humano e pessoal faz a diferença. A interação produtiva se dá por meio de workshops, peer learning, círculos de aprendizado ou novos meios de discutir conhecimento com outros. É construir informação de modo mais coletivo e compartilhado.

Outro ponto que merece atenção é a gamificação. CEO da Whatzlife, o publicitário alemão Hansjörg Zimmermann fundou a empresa porque notou que faltava diversão nas aulas das escolas tradicionais. Publicitário e ex-dono de agência, ele decidiu criar um negócio que desenvolve aplicativos que ensinam e entretêm, elaborados a pedido de companhias que desejam “preparar seus funcionários rapidamente para a transformação digital”. De acordo com Zimmermann, promover diversão e oferecer recompensas para o aprendizado garante que a informação seja capturada – ainda mais se isso for oferecido pelo smartphone.

Trabalho x tecnologia

Pode a tecnologia nos ajudar a ter uma vida mais saudável? De certa forma, sim. Existe uma ampla variedade de aplicativos e sites que nos orientam a cuidar mais do corpo e da mente. Por outro lado, ela pode piorar nosso grau de estresse. Experimente perguntar para um ansioso que esqueceu o celular em casa como está se sentindo sem o aparelho. Ou para um workaholic como o acúmulo de e-mails pode afetar o humor. O segredo, portanto, está no uso equilibrado da tecnologia, seja no trabalho, seja na vida cotidiana.

O tema foi abordado no DM.exco por Angel Hernandez, fundador e CEO da Connected Business (vídeo acima), companhia alemã que desenvolve treinamentos e programas de mindfulness no universo corporativo, incluindo práticas de meditação e autoconhecimento. Segundo Hernandez, um dos principais desafios enfrentados pelos profissionais é o relacionamento com os colegas. Os funcionários costumam apontar esse fator como um dos pontos mais agradáveis do trabalho, e também como uma das questões mais complexas no cotidiano profissional.

Sua experiência aponta que é rápida a adesão dos funcionários a programas que buscam promover um maior equilíbrio pessoal e profissional diante dos desafios contemporâneos. O problema está em continuar o processo depois que a rotina é retomada. Por isso, é importante ter ferramentas que ajudem as pessoas a estabelecer algumas práticas no dia a dia. E aí a tecnologia pode ser uma grande aliada. “Essa é a razão de ser um fã total do smartphone”, afirmou Hernandez.

Entre os recursos que podem contribuir para esse processo está o aplicativo de meditação 7Mind (vídeo abaixo), que promete ajudar as pessoas a “transformar a mente em uma poderosa ferramenta”. Pode parecer contraditório recorrer a um app para meditar, já que um dos problemas da vida digital é exatamente o volume de notificações e mensagens que demandam nossa constante atenção. Mas aprender a controlar o smartphone e os lembretes que você recebe faz parte do processo. “Eu sou o dono do celular, não é o celular que é meu dono”, afirmou Jonas Leve, cofundador da 7Mind, e um dos convidados do DM.exco.

Na 7Mind, os horários de trabalho são flexíveis, e existe um programa opcional de meditação diária na hora do almoço. E se há um problema? Comunicação é o segredo. Recomenda-se que todos falem com seus pares sobre algo que está prejudicando o trabalho. Em termos saudáveis, diga-se. Se houver sinal de estresse, dá-se um passo para trás e se medita.

Pesquisadora do Centro Alemão de Estudos em Inteligência Artificial, Tanja Schneeberger esteve no DM.exco para falar sobre o projeto EmmA, assistente virtual que atua no tratamento de pacientes de Burnout, a síndrome do esgotamento profissional. EmmA auxilia pessoas que já retornaram ao escritório e que podem sofrer novas crises de estresse. O programa conversa com a pessoa; a inteligência artificial compreende as emoções do paciente, podendo dar recomendações para que ele possa enfrentar seu conflito interno e desenvolver seu trabalho. O recurso é de ponta, mas não se basta. Schneeberger lembrou que tão importante como contar com avançados recursos tecnológicos é promover uma comunicação saudável entre os funcionários e ter lideranças que entendam as pressões que todos nós sofremos no dia a dia.