Febraban Tech 2026: quando a tecnologia vira experiência de marca no setor financeiro

IA, dados e novas interfaces redesenham a relação entre marcas financeiras e consumidores

Agentes inteligentes, hiperpersonalização e Open Finance mostram como a transformação dos bancos começa a redesenhar marketing, comunicação e relacionamento com consumidores. A próxima transformação do marketing financeiro pode não começar no marketing.

Na Febraban Tech 2026, realizada entre 24 e 26 de agosto, em São Paulo, boa parte das discussões sobre inteligência artificial, agentes, dados e Open Finance apontou para mudanças que chegam diretamente à relação entre marcas e consumidores.

Não por acaso. Os canais digitais já concentram 83% das transações bancárias no Brasil, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, realizada pela Deloitte. E, à medida que interfaces inteligentes passam a recomendar, conversar e executar tarefas, tecnologia deixa de ser apenas infraestrutura. Ela se torna experiência, atendimento e ponto de contato de marca.

Para quem lidera marketing e comunicação, alguns sinais do evento ajudam a entender essa mudança.

Da personalização ao contexto

Personalizar não é novidade. O que muda é a profundidade.

No painel “Hiperpersonalização 2.0”, executivos de Santander, XP, Accenture Song, Insider e I2AI discutiram a passagem para um modelo no qual agentes inteligentes combinam dados para compreender não apenas quem é o cliente, mas seu contexto e intenção.

A diferença é importante. Durante anos, personalizar significou identificar perfis, segmentar públicos e adequar ofertas. Com dados em tempo real e IA, uma mudança no padrão de consumo, uma viagem ou uma nova movimentação financeira podem funcionar como sinais de diferentes momentos de vida. Mas identificar um sinal não significa compreender seu significado.

É aí que entra uma nova camada para o marketing. Dados reconhecem comportamentos. Contexto ajuda a interpretar momentos. A vantagem passa a estar menos em demonstrar quanto uma empresa sabe sobre alguém e mais em usar esse conhecimento com pertinência.

A IA entra na operação do marketing

Essa transformação já aparece na prática. A pesquisa Febraban/Deloitte apresentada no evento mostra que 53% dos bancos participantes já utilizam agentes inteligentes para geração de conteúdo de marketing. O índice chega a 71% quando o uso envolve atendimento por chatbots e voicebots e a 76% na automação de processos internos.

É uma mudança de estágio. A primeira onda da IA generativa foi marcada pela experimentação e por ganhos individuais de produtividade. Os agentes começam a inserir essa inteligência em processos mais amplos, conectando dados, conteúdo, atendimento e jornadas.

Para o marketing, isso traz uma consequência: quando todos passam a acessar tecnologias semelhantes, usar IA deixa, por si só, de ser diferencial competitivo.

A vantagem migra para a qualidade dos dados, o repertório da organização e sua capacidade de decidir o que comunicar, para quem, em qual momento e com qual significado.

A tecnologia pode escalar a comunicação. Relevância continua dependendo de contexto.

Quando a interface também comunica a marca

Se 71% dos bancos pesquisados já usam agentes em chatbots e voicebots, a IA também começa a ocupar um espaço tradicionalmente associado à experiência de marca.

Um sistema que antes apresentava menus e respondia a comandos passa progressivamente a interpretar solicitações, recomendar caminhos e executar tarefas. Essa evolução, dos assistentes aos agentes mais autônomos, esteve no centro da programação da Febraban Tech, cujo tema em 2026 foi “Agentes Inteligentes, liderança humana”.

A implicação para branding é direta. Se um agente conversa, orienta e resolve problemas em nome de uma empresa, seu comportamento também comunica a marca.

Tom de voz, clareza, capacidade de compreender contexto, transparência e resolução deixam de ser apenas atributos de UX ou atendimento. Passam a interferir diretamente na percepção sobre a instituição.

Marcas financeiras sempre foram materializadas por publicidade, agências, cartões, aplicativos e funcionários. Agora serão também experimentadas pelo comportamento de seus agentes.

Mais dados exigem mais confiança

O Open Finance acrescenta outra dimensão a essa mudança.

Segundo a pesquisa Febraban/Deloitte, 92% dos bancos participantes veem o Open Finance como oportunidade para ampliar o acesso a dados financeiros. Para 85%, esses dados podem aprimorar campanhas direcionadas aos clientes, enquanto 69% identificam potencial para criar ofertas mais competitivas.

É uma transformação relevante para o marketing. O conhecimento sobre o consumidor deixa de estar limitado à relação mantida com uma única instituição e pode produzir uma compreensão mais ampla de sua vida financeira.

Quanto maior essa capacidade, porém, maior a responsabilidade sobre seu uso.

A própria pesquisa mostra que 80% das instituições apontam experiência do cliente e segurança entre os principais vetores de diferenciação competitiva.

Essa relação entre inovação e confiança também chegou ao palco. Em painel com lideranças de tecnologia de Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Santander e Caixa, a discussão passou pelo equilíbrio entre inovação, segurança, governança, pessoas e necessidades dos clientes.

Para comunicação, confiança deixa de ser apenas algo que a marca afirma e passa a ser algo que precisa ser experimentado. Está na transparência sobre o uso dos dados, na clareza de uma recomendação, na segurança de uma operação e também na capacidade de reconhecer que nem toda informação disponível precisa se transformar em oferta.

Da inteligência à relevância

Os bancos brasileiros devem investir R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, segundo a Febraban, com cerca de R$ 3 bilhões destinados a inteligência artificial, Analytics e Big Data.

Mas talvez o principal sinal da Febraban Tech para o marketing esteja menos no tamanho desses investimentos e mais no que acontece quando essa tecnologia chega ao consumidor.

Um processo interno mais rápido pouco acrescenta à marca se a jornada continua complexa. Mais dados não produzem necessariamente uma comunicação melhor. Um agente sofisticado perde valor se não resolve o problema. E personalização deixa de ser vantagem quando se torna invasiva.

É nesse ponto que tecnologia, experiência, marketing e comunicação passam a operar como partes do mesmo sistema.

À medida que a inteligência artificial se dissemina pelo mercado, a tecnologia deixa de ser o diferencial para se tornar a infraestrutura da diferenciação.

Sobre ela, cada marca terá que construir o que ainda não pode ser automatizado por completo: contexto, identidade, confiança e relevância.